Naldo lança CD com participação de Mano Brown e capa polêmica assinada por Romero Britto

0 comentários

Projeto tem capa assinada por Romero Britto e parcerias com Erasmo e Catra.

O novo disco de Naldo, Sarniô, reúne diversos motivos para que os detratores critiquem o músico carioca sem nem mesmo ouvir o CD. A começar pela capa, que traz uma arte assinada por Romero Britto. Essa opção foi suficiente para as redes sociais encherem a internet com memes e montagens de humor duvidoso. Romero pode ser um artista plástico brasileiro que goza de prestígio internacional, mas em pleno país de origem o pernambucano não conta com muita simpatia do público.

A ilustração foi avaliada com um certo tom de ironia por quem já não nutria simpatia por Naldo e por funk. Estes, enxergaram na capa do CD o pior de dois mundos. Mas o cantor ainda teve que enfrentar outra provação antes do lançamento. Ao anunciar parceria com Mano Brown, líder dos Racionais MCs, ele garante que foi chamado de playboy e arrogante pelos admiradores da banda de rap. "'Onde já se viu o Brown se juntar ao Naldo? Que absurdo. Ele é mó playboy'. Foi esse o tipo de comentário que tive de ler. Mas não me incomodei. O Brown sabe dos meus valores e do meu talento. Do contrário, não teria aceitado a parceria. E playboy eu? Ridículo esse tipo de acusação", se defende.

Naldo explica que esses casos antes do disco ser lançado oficialmente são mais algumas das provações que ele precisa superar constantemente, seja profissional ou pessoalmente. "Até o meu casamento (com Ellen Cardoso, a Mulher Moranguinho) foi colocado em dúvida, como se fosse um absurdo casar com uma dançarina de funk. Ainda bem que, com o tempo, eu provo que muitas dessas observações maldosas estavam erradas. Não passam de análises estereotipadas".

Mas o que talvez incomode Naldo de verdade é ter seus discos avaliados pela capa, por uma parceria ou apenas um hit. "A galera torce contra, mas nem escuta o disco", observa. O novo trabalho do cantor é o mais diferente da carreira. Ao mesmo tempo que não deixa de fora o funk pop quase parecido com um jingle, caso de Amor de Chocolate, traz influências do rap, do funk norte-americano e até do soul. A seguir, o músico conta como foi o processo de gravação das 17 faixas do CD que foi feito no estúdio montado na própria casa, fala sobre sua amizade com Mano Brown e Romero Britto e relembra a morte do irmão Lula (assassinado em um crime ainda sem explicação).

R7 — Como surgiu sua amizade com o Romero?

Naldo — Minha relação com Romero Britto começou em uma das minhas primeiras viagens para os Estados Unidos. Eu já admirava o cara. Ele faz algo único. Quando cheguei em Miami, me encontrei com o Romero e disse que tinha quadros dele em casa. Foi quando o Romero me presenteou com a capa do disco. Nossos trabalhos combinam. Ele é pop, assim como eu. E é um cidadão que merece todo respeito. Porque ele é um cara que saiu daqui para vencer lá fora sem a ajuda de ninguém. 

R7 — Como você recebeu as críticas sobre a capa?

Naldo — A polêmica sempre existe. E eu respeito. Porém, Tom Jobim já dizia que ninguém convive bem com o sucesso alheio no Brasil. Aqui só vira herói quando morre precocemente. Nos Estados Unidos, o Jordan é um cara que é um Deus entre os jovens. Aqui, a galera só sabe falar mal do Pelé, por exemplo. É complicado.

R7 — Você acha que torcem contra você?

Naldo — O cara que não gosta da minha música pensa que foi fácil chegar até aqui. Eu dou valor para o músico, como dou valor ao dentista, ao médico. Se os caras estudam muito, a gente rala dez anos para chegar em algum lugar. Não é da noite para o dia como alguns pensam. Eu vim de baixo, sem pai famoso. O pessoal não aceita isso. Eu não entendo porque torcem contra mim. A galera torce contra, mas nem escuta o disco. Sempre tem alguém falando do meu cachê, do carro que eu uso. Me chamam de playboy, de falido. O Brown não andaria comigo se a minha origem e minha história não fosse real. Consegui tudo trabalhando. Saí da Vila do Pinheiro, que só tem crime, e  venci. Playboy eu? Eu sou arrogante? Ridículo esse tipo de acusação. Ninguém sabe o duro que dei. Abri mão de lazer com amigos para fazer aula de canto e teatro nos fins de semana. Andava uma hora para aprender gratuitamente. Fui engraxate. Eu queria conseguir algo, queria ajudar minha família. Queria ter um tênis maneiro. Mas meu pai não tinha condições de me dar nada. E lá na favela a gente só tem dois caminhos: trabalhar ou roubar. E eu fui pro caminho certo. Não queria decepcionar minha mãe. Nego pode até criticar meu som, só que não estou fazendo algo fabricado. Romero e o Mano Brown também não. É a verdade de cada um.

R7 — Esse tipo de comentário atingiu até seu casamento com a Ellen Cardoso (Mulher Moranguinho), certo?

Naldo — Até o meu casamento foi colocado em dúvida, como se fosse um absurdo casar com uma dançarina de funk. Ainda bem que, com o tempo, eu provo que muitas dessas observações maldosas estavam erradas. Não passam de análises estereotipadas. Eu sempre tenho que provar alguma coisa. Do casamento ao cachê, me pedem explicações. Tudo é prova de superação na minha carreira. O casamento foi a vontade de celebrar nosso sentimento. A forma como virou assunto na mídia não foi legal. A gente não sabia que se tornaria em algo polêmico, irônico. No dia, nem vimos. Mas a repercussão não foi bacana mesmo. Mas a prova do nosso amor é a filha que tivemos. Nosso relacionamento não é uma mentira. 

R7 — Seu novo disco foi feito para ser diferente dos outros trabalhos, já que traz parcerias com gente tipo Erasmo e Catra?

Naldo — O funk tem duas vertentes: o tamborzão e esse funk pop, que eu trouxe em 2011 com meu primeiro DVD. Formei uma cena que hoje tem outros artistas também. Nesse novo disco, queria fazer músicas que falassem de amor, com pitada de sensualidade e sem me preocupar em ser alto astral o tempo todo. Não queria compor 17Amor de Chocolate.

R7 — Quais são as influências do disco?

 

Naldo — O disco traz influência de Michael Jackson e Stevie Wonder. Tem muita coisa que ouvia quando moleque, além do funk pop, claro. É diferente mesmo. É o som que toca no rádio, na festa, na noite, no baile. É o pop nacional. Lá fora, o hip hop virou pop. O funk também fez este caminho por aqui. É a qualificação do nosso som, com banda, coreografia e tudo. O Marcos Buaiz fala que eu consegui trazer uma sonoridade que ficaria bem em qualquer idioma. Não tenho problema em ser popular. Canto para o povo, não quero soar político ou "cabeçudo".

R7 — Você já era amigo do Brown antes?

Naldo — Eu não era amigo do Mano Brown. A parceria surgiu por causa do CD. Ele é muito mente aberta. As pessoas estranharam a parceria, mas ele não é fechado no mundinho dele. Acho do cacete um cara que está aberto para essas coisas. O que não é flexível, quebra. Nos encontramos algumas vezes e em algumas ocasiões só conversamos mesmo, nem fizemos música. O Brown fez show com uma camiseta minha. Podem comentar o que for sobre isso que não vão deixar a gente puto. O que a gente passou, só nós dois sabemos. E se falar, vou responder, por que a favela tá dentro de mim.

R7 — O Brasil não lida bem com parcerias entre artistas diferentes?

Naldo — Lá fora o Jay Z grava com Linkin Park e ninguém fala nada. E isso não é de hoje. Stevie Wonder gravou com o Snoop Dogg também recentemente. Aqui é que não pode ter parceria desse tipo. Tudo é sagrado. Tem nada a ver esse pensamento. Mas a música tá aí. Se não curtir, paciência.

R7 — Seu filho Pablo quer ser cantor também. Como você lida com isso?

Naldo — Meu filho tem bastante facilidade, mas eu dou várias dicas para ele não errar. Quero que ele caminhe com as próprias pernas. Temos um estúdio em casa, onde gravei meu CD. Ele sempre tá lá com alguém gravando uns sons. Pablo não tem privilégio só por ser meu filho. Tem que ser bom.

R7 — O envolvimento dele com um amigo que morreu de forma suspeita te incomodou?

Naldo — Não era amigo, era um conhecido. Não me assustou, porque é uma rotina lá na Vila do Pinheiro. Parece que o menino tinha usado drogas. E nem teve briga, só bate boca. Infelizmente, aconteceu essa fatalidade. Não desejo isso a ninguém. Mas eu já tinha falado para o Pablo não ir com tanta frequência na Vila do Pinheiro, pois sei dos riscos que existem. Faço shows para as crianças de graça lá. Mas tenho um amigo que foi baleado dentro da Vila do Pinheiro. O moleque perdeu uma perna e é paraplégico agora. Essa família do meu amigo pode fazer o que sobre isso? Nada. Todo mundo corre esse risco lá. O ambiente piorou muito desde a minha infância. Temos inúmeras situações de perigo. 

R7 — Como era sua vida na Vila do Pinheiro?

Naldo — Tem moleque que nasceu, cresceu e morreu na Vila do Pinheiro sem ter pisado em Copacabana ou no centro de Bonsucesso. A vida fica restrita ao bairro para quem não tem oportunidade. Eu fugi disso.

R7 — Como encara o crime cometido contra seu irmão, Lula, em 2008 (encontrado carbonizado)?

Naldo — Perdi meu irmão de uma forma brutal. Assassinado. Até hoje a gente não sabe o motivo. A minha não é a única família que enfrentou esse tipo de problema. Minha casa foi invadida no Rio em 2014 e até hoje não sei quem foi. As coisas funcionam assim por aqui.

Fonte: entretenimento.r7.com

Comentários